Quarta, 27 Julho 2016 10:27

Cartas, lágrimas e gravatas-borboleta marcam homenagem a Daniel Aarão Reis

"Tenho a certeza de que Técio e Barandier jamais abandonarão os meus filhos, mesmo quando eu morrer e estiver no mundo das sombras." Este trecho da carta escrita por Daniel Aarão Reis no final da década de 1960 foi lido pelo emocionado presidente nacional do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), Técio Lins e Silva, nesta quarta-feira (27/7), na sessão solene pelo centenário de nascimento do advogado "que amava os livros" e dá nome à Biblioteca do IAB. O plenário estava lotado para a homenagem que incluiu uma saudação à memória de Lucia Penna Aarão Reis, mulher de Daniel. A solenidade foi assistida ao vivo, via internet, com o lançamento do novo site do IAB e do aplicativo que permite acompanhar, em tempo real, os eventos no plenário pelo computador, celular ou tablet.


O homenageado, que "era uma figura extraordinária de advogado e um dos maiores exemplos de generosidade e solidariedade", ressaltou o presidente do IAB, escolheu Técio e Antônio Carlos Barandier para defender os seus quatro filhos perseguidos pela ditadura militar imposta em 1964, dois deles presos, torturados e banidos do País. Da tribuna do plenário, ao discursar em nome da família, o neto Vítor Acselrad, bacharel em História e com mestrado e doutorado em Ciência Política, disse que o homenageado "considerava Técio e Barandier os heróis que arrancaram os seus filhos da prisão".

Em seu discurso, ele disse ainda que o avô "preferia ver os filhos à distância a vê-los próximos e no cárcere". A respeito da avó Lúcia, Vítor destacou que "ela tinha paixão pelas letras, era amante e praticante de poesia e tocava piano com a mesma doçura com que tratava os netos". Compareceram à cerimônia os filhos Daniel, Samuel, Marcos e Gilberta, nove netos, 12 bisnetos, um genro e duas noras. Todos usavam gravatas-borboleta, marca registrada da indumentária de Daniel Aarão Reis.  

 

Vítor Acselrad disse que o avô considerava Técio e Barandier os heróis que arrancaram seus filhos da prisão.



Acervo do coração - Técio abriu o baú, que chamou de "acervo do coração", e leu passagens de diversas cartas. "São escritos comoventes", afirmou o presidente do IAB, que foi às lágrimas em diversos momentos. "Daniel, que ficou órfão aos 36 anos e chamava a mim e a Barandier de seus pais, é uma grande lição humana, por sua solidariedade não somente aos familiares, mas a todos os presos políticos da ditadura", ressaltou. Antônio Carlos Barandier disse que "Daniel Aarão Reis foi uma pessoa admirável, com a sua infalível gravata-borboleta, e um dos mais autênticos exemplos de bravura". Em seu livro Relatos - um advogado na ditatura, Barandier exalta a trajetória de Daniel na vida e na profissão, conforme a leitura de alguns trechos feita por Técio.




Antes de passar a palavra para o ex-presidente do IAB e do Conselho Federal da OAB Eduardo Seabra Fagundes, incumbido de fazer a saudação à memória do homenageado, Técio registrou que Daniel tinha por Eduardo uma estima muito grande. "Me sinto extremamente honrado por ter sido escolhido para fazer este pronunciamento", iniciou o ex-presidente. "A Biblioteca do IAB era um depósito de livros e não alcançava os seus objetivos porque não tinha a organização necessária, passando a cumprir a sua função somente após Daniel, com a sua dedicação extraordinária, transformá-la realmente num espaço de estudos e trabalhos", afirmou Eduardo Seabra Fagundes, que esteve à frente do IAB no biênio 1976/1978. "Ele exerceu a advocacia por 60 anos, o que poucos conseguem, e ficamos amigos até o fim da vida dele", concluiu.

Na Biblioteca Daniel Aarão Reis foi montada uma exposição, que ficará aberta até o dia 4 de agosto, reunindo fotografias, diplomas, medalhas, a carteira da OAB e boletins assinados pelo homenageado com o registro das atividades da biblioteca.