Ministro da Justiça diz que disputa política cria psicose coletiva

Folha de S.Paulo - 1/4/2016
Eugênio Aragão em entrevista em seu gabinete Eugênio Aragão em entrevista em seu gabinete Diego Padgurschi/Folhapress
DIMMI AMORA
DE BRASÍLIA

01/04/2016  12h38

O ministro da Justiça, Eugênio Aragão, afirmou em entrevista nesta sexta-feira (1º) que as famílias estão sofrendo de uma "psicose coletiva" por causa das divergências políticas e que a rede social "aflora os instintos mais primitivos das pessoas", comparando manifestações anônimas da política com a pedofilia.

A fala ocorreu após ele participar de uma cerimônia na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), onde a entidade em conjunto com o Ministério da Justiça, o Ministério Público Federal e o Instituto dos Advogados do Brasil apresentou uma Carta de Conclamação pedindo tolerância e pela paz, preocupada com a violência "principalmente nas palavras", segundo o Dom Leonardo Stenier, secretário-geral da entidade.

Aragão afirmou que a violência estava dominando o debate político, disse que "é preciso baixar a bola" e acusou, sem citar nomes, haver "grupos e pessoas interessadas no quanto pior melhor", que dificultam a governança do país. Em seguida, ele emendou sua preocupação com as famílias.

"Eu fico muito preocupado. Todos nós temos experiências nesse sentido, de conflitos dentro das famílias. Isso nos afeta na nossa profunda intimidade. Isso não é bom, cria uma cultura da insatisfação, da violência e, porque não dizê-lo, de uma psicose coletiva. Temos que ultrapassar isso", afirmou o ministro.

Aragão afirmou ainda que houve dois militantes mortos e atribuiu os crimes à intolerância política. Ele citou entre as mortes a de um prefeito do PC do B, assassinado com um tiro na cabeça, mas sem identificar qual. Além dos crimes, o ministro afirmou que já houve agressões contra pessoas vestidas de vermelho, autoridades verbalmente agredidas em restaurantes, sedes de partidos e organizações sociais vandalizadas e crianças que sofreram bullying na escola pelos pais serem autoridades ou por posições políticas.

"Tivemos ministros de corte suprema provocados e submetidos a situações constrangedoras. Não podemos tolerar isso. As instituições são caras para todos nós. Os juízes precisam ser independentes e não podem ser constrangidos por conta de sua opinião. Colocamos por terra as conquistas do estado democrático de direito", afirmou o ministro lembrando que pediu à Polícia Federal a investigação desses casos e também reforço na segurança de autoridades.

REDES SOCIAIS

Sobre as redes sociais, o ministro lembrou que elas são um fenômeno novo e que a violência nelas ocorre pelo agressor não "olhar nos olhos" do interlocutor.

"Olha para um monitor e ali me parecem que afloram aqueles instintos mais primitivos das pessoas. O superego, como se diria na psicanálise, não segura o id na rede. As pessoas dizem coisas na rede o que talvez não dissessem se olhassem na cara de quem estão conversando", disse Aragão comparando agressores anônimos a pedófilos.

"As pessoas muitas vezes se escondem no anonimato. No fundo, isso é a mesma fonte de perversidade que anima a pornografia infantil na rede. É o anonimato, a coisa de não precisar prestar contas a ninguém. Isso é ruim. Temos que agir responsavelmente. Temos que aceitar que os outros não concordem com a gente e que essa discordância seja feita em nível de civilidade e não de desqualificação", afirmou.

O ministro também afirmou que resultado das eleição de 2014 com baixa margem de votos de vantagem para a vencedora, a presidente Dilma Rousseff, ajudou a legitimar quem trabalha contra o resultado das eleições e que é necessário esperar o próximo pleito, em 2018.

"Teremos outras eleições, em 2018, e é importante na democracia que haja revezamento. Mas só é possível de forma tranquila se todos enxerguemos no outro alguém tão legitimado como nós. Não podemos achar que somos os donos da moralidade, donos da virtude e que o outro é apenas um sujeito pernicioso, um degenerado, desqualificado. Não podemos aceitar esse tipo de linguagem da divisão. Precisamos da linguagem da união", afirmou o ministro.